Augusto dos Anjos

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Estado da Paraíba em 1884 e faleceu em 1914 aos 29 anos. Publicou um único livro de poesias, intitulado "Eu". Sua obra reflete a superação das velhas concepções poéticas e a procura de um novo caminho. Utilizou em sua poesia um vocabulário científico, e sua temática mais comum sempre gira em torno da morte, da decomposição da matéria, dos vermes e de uma visão trágica da existência.

"Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga. Escarra nesta boca que te beija!"

Cronologia Histórica

Cronologia Histórica
1884 : Nasce Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, a 20 de abril, no Estado da Paraíba.
1900 : Matricula-se no curso de Humanidades do Liceu Paraibano.
Conhece Santos Neto e Órris Soares ( tio avô de Jô Soares), de quem se torna amigo. Publica o primeiro trabalho, o soneto " Saudade " , no Almanaque do Estado da Paraíba.
1901 : Inicia sua colaboração no jornal O commercio, na capital paraibana.
1903 : Ingressa na Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco.
1904 : Publica no jornal "O commercio" o célebre soneto "Vandalismo" .
1905 : Morre seu pai, Alexandre Rodrigues dos Anjos, a 13 de janeiro.
Seis dias depois publica os três sonetos "A meu pai doente", "A meu pai morto", "Ao sétimo dia do seu falecimento".
1906 : Publica no jornal "O Commercio" seu soneto mais famoso "Versos íntimos".
1907 : Conclui o curso de Direito.
1908 : Leciona Literatura no Liceu Paraibano, como professor interino.
1909 : Inicia sua colaboração no diário oficial do Estado, "A União".
1910 : Casa-se com dona Ester Fialho, a 4 de julho. Transfere-se para o Rio de Janeiro, em outubro desse ano.
1911 : Nasce morto seu primeiro filho, a 2 de fevereiro. Leciona Geografia na Escala Normal, como professor interino, e também no colégio Pedro II
1912 : Publica o livro EU, custeado pelo seu irmão Odilon, pelo total de 550.000 réis em tiragem de 1000 exemplares. O livro é recebido com grande impacto e estranheza por parte da crítica, que oscila entre o entusiasmo e a repulsa. Nasce sua filha, Glória.
1913 : Nasce seu filho Guilherme.
1914 : É nomeado diretor do grupo escolar Ribeiro Junqueira, em Leolpoldina, Minas Gerais, a 1º. De julho. Muda-se para Leolpoldina, em 22 do mesmo mês. Morre a 12 de novembro.
1920 : Publica-se Eu e Outras Poesias: reedição do EU, completado com uma coletânea de versos póstumos, Outras Poesias, organizados pôr Órris Soares, também prefaciador do volume.
1928 : Lançamento da terceira edição de suas poesias, pela livraria Castilho do Rio de Janeiro, com extraordinário sucesso de crítica e público.

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POEMAS

Amor e Crença

E sê bendita!
H. Sienkiewicz

Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo
Ser que preside e rege os outros seres,
Que os encantos e a força dos poderes
Reúne tudo em si, num só encanto?
Esse mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?!
Ah! Se queres saber a sua grandeza,
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita a cúp'la do Céu santa e infinita!
Deus é o templo do Bem. Na altura Imensa,
O amor é a hóstia que bendiz a Crença,
ama, pois, crê em Deus, e... sê bendita!

Amor e Religião

Conheci-o: era um padre, um desses santos
Sacerdotes da Fé de crença pura,
Da sua fala na eternal doçura
Falava o coração. Quantos, oh! Quantos
Ouviram dele frases de candura
Que d'infelizes enxugavam prantos!
E como alegres não ficaram tantos
Corações sem prazer e sem ventura!
No entanto dizem que este padre amara.
Morrera um dia desvairado, estulto,
Su'alma livre para o Céu se alara.
E Deus lhe disse: "És duas vezes santo,
Pois se da Religião fizeste culto,
Foste do amor o mártir sacrossanto."

Anseio

Nessas paragens desoladas, onde
O silêncio campeia soberano
Morreram notas do bulício humano,
Nem vibra a corda que a saudade esconde.

Anseios d'alma aqui se perdem. Donde
Fluiu outrora a luz dum doce engano,
Hoje é trevas, é dor, é desengano,
E eu ergo preces que ninguém responde.

Triste criança virginal, quem dera
Voar est'alma a ti, longe dos laços
Dessa jaula de carne que a encarcera!

Ah! Que unidos assim, lá nos espaços,
Cantarias do amor a primavera,
Tendo a minh'alma presa nos teus braços!

Anseio - OUTRA DE MESMO NOME

Que sou eu, neste ergástulo das vidas
Danadamente, a soluçar de dor?!
- Trinta triliões de células vencidas,
Nutrindo uma efeméride inferior.

Branda, entanto, a afagar tantas feridas,
A áurea mão taumitúrgica do Amor
Traça, nas minhas formas carcomidas,
A estrutura de um mundo superior!

Alta noite, esse mundo incoerente
Essa elementaríssima semente
Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal...

Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,
E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto
Não poder dar-lhe vida material!

Ao Luar

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

Aos meus filhos

Na intermitência da vital canseira,
Sois vós que sustentais (Força Alta exige-o...)
Com o vosso catalítico prestígio,
Meu fantasma de carne passageira!

Vulcão da bioquímica fogueira
Destruiu-me todo o orgânico fastígio...
Dai-me asas, pois, para o último remígio,
Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!

Culminâncias humanas ainda obscuras,
Expressões do universo radioativo,
Ions emanados do meu próprio ideal,

Benditos vós, que, em épocas futuras,
Haveis de ser no mundo subjetivo,
Minha continuidade emocional!

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminuição dinâmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.

É a subversão universal que ameaça
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E põe todos os astros na desgraça!

São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adeante,

Espião da cataclísmica surpresa
A única luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!

Apóstrofe à carne

Quando eu pego nas carnes do meu rosto.
Pressinto o fim da orgânica batalha:
- Olhos que o húmus necrófago estraçalha,
Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...

E o Homem - negro e heteróclito composto,
Onde a alva flama psíquica trabalha,
Desagrega-se e deixa na mortalha
O tacto, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!

Carne, feixe de mônadas bastardas,
Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,
A dardejar relampejantes brilhos,

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,
Em tua podridão a herança horrenda,
Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

As Montanhas

I
Das nebulosas em que te emaranhas
Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,
Qual é, na natureza espiritual,
A significação dessas montanhas!

Quem não vê nas graníticas entranhas
A subjetividade ascensional
Paralisada e estrangulada, mal
Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!

Ah! Nesse anelo trágico de altura
Não serão as montanhas, porventura,
Estacionadas, íngremes, assim,

Por um abortamento de mecânica,
A representação ainda inorgânica
De tudo aquilo que parou em mim?!

II
Agora, oh! deslumbrada alma perscruta
O puerpério geológico interior,
De onde rebenta, em contrações de dor,
Toda a sublevação da crusta hirsuta!

No curso inquieto da terráquea luta
Quantos desejos férvidos de amor
Não dormem, recalcados, sob o horror
Dessas agregações de pedra bruta?!

Como nesses relevos orográfícos,
Inacessíveis aos humanos tráficos
Onde sóis, em semente, amam jazer,

Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vive em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!

Asa de Corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...
Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!
É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...
É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária -
Cose para o homem a última camisa!

Ave Dolorosa

Ave perdida para sempre - crença Perdida - segue a trilha que te traça
O Destino, ave negra da Desgraça,
Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença!
Dos sonhos meus na Catedral imensa
Que nunca pouses. Lá, na névoa baça
Onde o teu vulto lúrido esvoaça,
Seja-te a vida uma agonia intensa!
Vives de crenças mortas e te nutres,
Empenhada na sanha dos abutres,
Num desespero rábido, assassino...
E hás de tombar um dia em mágoas lentas,
Negrejadas das asas lutulentas
Que te emprestar o corvo do Destino!

Ave Libertas

Ao clarão irial da madrugada,
Da liberdade ao toque alvissareiro,
Banhou-se o coração do Brasileiro
Num eflúvio de luz auroreada.
É que baqueia a vida escravizada!
Já se ouvem os clangores do pregoeiro,
Como um Tritão, levando ao mundo inteiro
Da República a nova sublimada.
E ali, do despotismo entre os escombros,
Rola um drama que a Pátria exalça e doura
Numa auréola de paz imorredoura,
A República rola-lhe nos ombros;
Enquanto fora na trevosa agrura
Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,
A Liberdade assoma majestosa,
- Estrela d'Alva imaculada e pura!
É livre a Pátria outrora opressa e exangue!
Esse labéu que mancha a glória pública,
Que apouca o triunfo e que se chama sangue,
Manchar não pôde as aras da República.
Não! Que esse ideal puro, risonho,
Há de transpor sereno os penetrais
Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho
Ao topo azul das Glórias Imortais!
Esplende, pois, oh! Redentora d'alma,
Oh! Liberdade, essa bendita e branca
Luz que os negrores da opressão espanca,
Essa luz etereal bendita e calma.
Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,
Caia do Santuário lá da História,
Fulgente do valor da vossa glória,
A Bênção do valor dos vossos filhos!

Barcarola

Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar -
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
Espelham-se os esplendores
Do céu, em reflexos, nas Águas, fingindo cristais
Das mais deslumbrantes cores.
Em fulvos filões doirados
Cai a luz dos astros por
Sobre o marítimo horror
Como globos estrelados.
Lá onde as rochas se assentam
Fulguram como outros sóis
Os flamívomos faróis
Que os navegantes orientam.
Vai uma onda, vem outra onda
E nesse eterno vaivém
Coitadas! não acham quem,
Quem as esconda, as esconda...
Alegoria tristonha
Do que pelo Mundo vai!
Se um sonha e se ergue, outro cai;
Se um cai, outro se ergue e sonha.
Mas desgraçado do pobre
Que em meio da Vida cai!
Esse não volta, esse vai
Para o túmulo que o cobre.
Vagueia um poeta num barco.
O Céu, de cima, a luzir
Como um diamante de Ofír
Imita a curva de um arco.
A Lua - globo de louça -
Surgiu, em lúcido véu.
Cantam! Os astros do Céu
Ouçam e a Lua Cheia ouça!
Ouça do alto a Lua Cheia
Que a sereia vai falar...
Haja silêncio no mar
Para se ouvir a sereia.
Que é que ela diz?!
Será uma História de amor feliz?
Não! O que a sereia diz
Não é história nenhuma.
É como um réquiem profundo
De tristíssimos bemóis...
Sua voz é igual à voz
Das dores todas do mundo.
Fecha-te nesse medonho
Reduto de Maldição,
Viajeiro da Extrema-Unção,
Sonhador do último sonho!
Numa redoma ilusória
Cercou-te a glória falaz,
Mas nunca mais, nunca mais
Há de cercar-te essa glória!
Nunca mais! Sê, porém, forte.
O poeta é como Jesus!
Abraça-te à tua Cruz
E morre, poeta da Morte! -
E disse e porque isto disse
O luar no Céu se apagou...
Súbito o barco tombou
Sem que o poeta o pressentisse!
Vista de luto o Universo
E Deus se enlute no Céu!
Mais um poeta que morreu,
Mais um coveiro do Verso!
Cantam nautas, choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas!

Budismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Canto de Onipotência

Cloto, Átropos, Tifon, Laquesis, Siva...
E acima deles, como um astro, a arder,
Na hiperculminação definitiva
O meu supremo e extraordinário Ser!

Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição virtual tornada viva
E o embrião do que podia acontecer!

Por antecipação divinatória,
Eu, projetado muito além da História,
Sentia dos fenômenos o fim.. .

A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!

Caput Immortale

Na dinâmica aziaga das descidas,
Aglomeradamente e em turbilhão
Solucem dentro do Universo ancião,
Todas as urbes siderais vencidas!

Morra o éter. Cesse a luz. Parem as vidas,
Sobre a pancosmológica exaustão
Reste apenas o acervo árido e vão
Das muscularidades consumidas!

Ainda assim, a animar o cosmos ermo,
Morto o comércio físico nefando,
Oh! Nauta aflito do Subliminal,

Como a última expressão da Dor sem termo,
Tua cabeça há de ficar vibrando
Na negatividade universal!

Ceticismo

Desci um dia ao tenebroso abismo,
Onde a dúvida ergueu altar profano;
Cansado de lutar no mundo insano,
Fraco que sou, volvi ao ceticismo.
Da Igreja - a Grande Mãe - o exorcismo
Terrível me feriu, e então sereno,
De joelhos aos pés do Nazareno
Baixo rezei, em fundo misticismo:
- Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!
Se esta dúvida cruel qual me magoa
Me torna ínfimo, desgraçado réu.
Ah, entre o medo que o meu
Ser aterra,
Não sei se viva p'ra morrer na terra,
Não sei se morra p'ra viver no Céu!

Contrastes

A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

As alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...

Infeliz

Alma viúva das paixões da vida,
Tu que, na estrada da existência em fora,
Cantaste e riste, e na existência agora
Triste soluças a ilusão perdida;

Oh! Tu, que na grinalda emurchecida
De teu passado de felicidade
Foste juntar os goivos da Saudade
Às flores da Esperança enlanguescida;

Se nada te aniquila o desalento
Que te invade, e o pesar negro e profundo,
Esconde à Natureza o sofrimento,

E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo,
Alma viúva das paixões da vida.

Psicologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Êste ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Soneto

Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove
primaveras que hoje completou.

Canta no espaço a passarada e canta
Dentro do peito o coração contente.
Tu'alma ri-se descuidosamente,
Minh'alma alegre no teu rir s'encanta.
Irmão querido, bom Papá, consente
Que neste dia de ventura tanta
Vá, num abraço de ternura santa,
Mostrar-te o afeto que meu peito sente.
Somente assim festejarei teus anos;
Enquanto outros que podem, dão-te enganos,
Jóias, bonecos de formoso busto,
Eu só encontro no primor de rima
A justa oferta, a jóia que te exprima
O amor fraterno do teu mano
Augusto. Em 28 de abril de 1901

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Versos Íntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja,

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga.
Escarra nesta boca que te beija!

Vozes da Morte

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!

A IDÉIA

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegração maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeda que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

Último credo

Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro - este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!
É o trancendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!
Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui ...
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

A árvore da serra

- As árvores, meu filho, não tem alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice mais calma!
- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!...
- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra.

O morcego

Meia-noite, ao meu quarto me recolho.
Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho
" Vou mandar levantar outra parede ..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre minha rede
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A consciência humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto.

Caixão fantástico

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas !
Nesse caixão iam talvez as Musas ,
Talvez meu Pai ! Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas !
A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio ...
Era tarde ! Fazia muito frio.
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio !

Soneto

Ao meu primeiro filho nascido
morto com sete meses incompletos

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,
Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral ?!...
Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!...
Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisteicamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER 

AUGUSTO DOS ANJOS

Estudos - Otto Maria Carpeaux

Augusto dos Anjos não teve sorte na vida: parecia a personificação de uma fase especialmente infeliz da evolução intelectual do Brasil, mistura incoerente de uma cultura ou semicultura bacharelesca, ávida de novíssimas novidades científicas, mal assimiladas, e dos ambientes das massas populares miseravelmente abandonadas nas ruas estreitas do Nordeste tropical. Ninguém o compreendeu, ninguém lhe leu os versos nos cafés superficialmente afrancesados do Rio de Janeiro, e é conhecida a cena de um dos seus raros admiradores que leu um soneto de Augusto dos Anjos a Olavo Bilac e recebeu a resposta desdenhosa: "É este o seu grande poeta? Fez bem ter morrido!" Foi uma época de eclipse do sal, de trevas ao meio-dia. Quem salvou a fama póstuma de Augusto dos Anjos foi seu povo, do Nordeste e do interior do Brasil. A abundância de estranhas expressões científicas e de palavras esquisitas em seus versos atraiu os leitores semicultos que não compreenderam nada de sua poesia e ficavam, no entanto, fascinados pelas metáforas de decomposição em seus versos assim como estavam em decomposição suas vidas. Nada menos que 31 edições do seu livro EU dão testemunho dessa imensa popularidade que é o reverso da medalha, repeliu os leitores exigentes, de tal modo que, até durante a fase modernista da literatura brasileira, os versos de Augusto dos Anjos passaram por exemplos de mau gosto de uma época superada. Foram alguns poucos leitores dedicados que conseguiram reivindicar e restabelecer a verdadeira grandeza de Augusto dos Anjos: Álvaro Lins, Antônio Houaiss, Francisco de Assis Barbosa (e, assim como nos quadros que pintou de altar de igrajas medievais o pintor ousava colocar no último canto seu auto-retrato, assim ouso colocar no fim dessa lista meu próprio nome). Lendo e relendo o EU, sempre descobrimos coisas novas, estranhas e admiráveis. O mau-gosto da expressões científicas e pseudo-científicas? Augusto dos Anjos tem o poder extraordinário de revelar um sentido oculto nos sons dessas palavras bárbaras, que acrescentam um novo frisson às suas visões tétricas e profundamente comoventes. Suas rimas surpreendentes e extravagantes abrem horizontes nunca vistos; parece-se ele com os metaphysical poets ingleses que não conhecia. Até sabe dar sabor metafísico a nomes prórpios; e mesmo quem ignora que a casa do Agra no Recife, no fim da ponte Buarque de Macedo, é o necrotério, sebte todo termor da morte ameaçadora no verso: "Recife. Ponte Buarque de Macedo...", tremor devido ao terrificante e como que definitivo ponto atrás da palavra "Recife", censura que é a linha divisória entre a vida e o fim da vida. Existem em Augusto dos Anjos inúmeros casos assim, de descoberta de um sentido novo das palavras. Nem sempre percebemos claramente os motivos da nossa admiração. É o esclarecimento desses motivos que devemos, agora, a Ferreira Gullar. Sua análise estilística da poesia de Augusto dos Anjos é precisa, sem cair jamais no jargão pseudo-científico dos pseudo-especialistas. Tem, como ponto de partida, uma indicação exata da situação literária do Brasil naquele tempo e como base uma análise sociológica, não menos exata, da vida e morte e morte nordestina de que Augusto dos Anjos é o poeta. Mas essa crítica não é só estilística nem apenas sociológica. O permanente ponto de referência é a psicologia do poeta que deu a seu livro o título EU. É um trabalho completo. Também é completo quanto às referências ao futuro. Augusto dos Anjos escreveu nas formas parnasianas do seu tempo. Modifica-lhes o sentido pelas influências de Baudelaire e de Cesário Verde e por algumas luzes do simbolismo. Mas preanuncia igualmente a poesia de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto, justamente lembrados por Ferreira Gullar. Quando Augusto dos Anjos morreu, o céu da poesia brasileira estava escurecido como por trevas ao meio dia. Ninguém o reconheceu. Hoje, a literatura brasileira parece, outra vez, escurecida por trevas. Mas quem sabe se não se encontra, irreconhecido entre nós - ou mesmo longe de nós - o grande poeta que sabe dizer como este povo sofre e lhe prever uma nova aurora.

Entrevista

Resposta ao Inquérito de Licínio dos Santos, em A Loucura dos Intelectuais - Rio de Janeiro - 1914

Nome: Augusto dos Anjos.
Idade: 28 anos.
Profissão: Professor e advogado.
Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. dos Anjos e D. Córdula C. R. dos Anjos.
Estado civil: Casado.
Antecedentes hereditários: Meu pai, vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa.
Antecedentes pessoais:
O que pode me adiantar sobre sua infância: Desde a mias tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos, relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento, numa atmosfera de rigorosíssima moralidade, da chamada vida física.
Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte, Engenho Pau D'Arco.
Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare, Edgar Poe.
Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam.
Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia, quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Conservo de memória tudo quanto produzo. São muito poucas vezes que me sento a mesa para produzir.
Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental.
O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos, acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar.
Em que idade começou a produzir: Se não me falha o poder de reminiscência, presumo, comecei a produzir muito antes dos 9 anos.
Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: Um livro de versos, Eu.
Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul.
Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas.
Sofre de insônia, cefaléia ou amnésia: Até a data não sofro absolutamente de amnésia. Tenho insônia raras vezes, mas a cefalalgia persegue-me constantemente.
Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho.
Faz as suas refeições com irregularidade: Sim.
Tem muito apetite: Regular.
Faz uso do álcool: Não.
Faz uso excessivo do café, chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos, o que não impede, entretanto, de abusar um pouco do café.

Prosa

Noite dos Artistas

Celebremos a vitória dos artistas. Uma noite como a de ontem reflete nitidamente a psicologia de um povo que expeliu por um instante toda a bílis recôndita de sua raça, e descansou um pouco da insipidez fastidiosa das nossas retretas, onde instintivamente se move, arrastando um tédio concentrado, numa gesticulação circular de manivela. Dir-se-ia que o espírito da festa, dotado de ubiqüidade maravilhosa, entrara como um conjunto de elementos anatômicos na organização de cada ser vivo, e impressionara vivamente todas as retinas como perspectivas anônimas de legenda germânica.
Mau grado a inconveniência dos aguaceiros que por vezes desabavam, pondo um rictus de impaciência nas fisionomias dos flâneurs, a noite dos artistas em tudo em tudo se destacou das anteriores, desde a correção admirável do nosso mundus mulieribus às belezas cromáticas das peças pirotécnicas.

ANAXÁGORAS
Nonevar, 31 de julho de 1909

Crônica

Deslumbrantíssima a noite de ontem, consagrada aos méritos da classe democrática. Todos a assistiram com essa incoercível superabundância de alma, espécie de crise nervosa superior, em que, devido ao funcionamento anormalíssimo dos neurônios hiperestesiados, sentimos, mau grado nosso, profundamente abalada toda a nossa subjetividade recôndita.
A iluminação policrômica inundava inteiramente o pátio, e, por um processo de transmissão mágica, se comunicava a todas as almas, banhando-se de uma forte luz intensa Os flirts abundaram, e cresceram na razão direta das emoções colhidas pela receptividade sensorial dos circunstantes.
Tudo revestiu um aspecto onimodamente encantador.
Aguardemos hoje a noite dos militares.

ANAXÁGORAS
Nonevar, 1 de agosto de 1909

Galeria dos Eleitos
O.S.

É um dos representantes mais genuínos da raça latina - este, que para o espírito do nosso povo ascende às máximas proporções de um Tolstoi meriodional. A sua crítica superior, de envolta com as metáforas hugoanas do seu estilo, é uma espécie de operação cirúrgica, em que o artista consumado, excedendo o nível morfológico de sua compleição animal, dir-se-ia um gigante helênico, dissecando admiravelmente todo microcosmo social, e empolgando extraordinariamente todas as cousas, como uma figura legendária de supertição caldaica. O aspecto conselheiral e burocrático do seu porte, contrastando com a esquisitice grotesca da burguesia ambulante, tinha para o meu espírito, ontem no pátio, o efeito emocionante de uma função melodramática, em que alternativamente se representassem perspectivas tão deslumbrantes como as de Walter Scott e escotismos tão picarescos como os de Moliére...

ANAXÁGORAS
Nonevar, 1 de agosto de 1909

Cartas Pessoais

Temos aqui a correspondência pessoal de Augusto dos Anjos (extraída do volume, Obra Completa, Ed. Nova Aguilar) que por alguma razão tivesse a ver com conteúdo literário, tão latente no autor, ou que contenha algum fato histórico importante em sua curta vida.

Cartas à Mãe, D. Córdula Carvalho Carvalho dos Anjos

Recife, 21 de maio de 1907
Prezada Sinhá-Mocinha,
Acuso o recebimento de sua alvissareira cartinha. Fiquei sabendo das notícias de casa nestas duas últimas semanas de maio com suas tonalidades místicas, tão bonito de apreciar-se nessas plagas retratadas no meu espírito, na sensibilidade que os nossos antepassados transmitiram. Faço veementes votos pela continuação da preciosa saúde de VM.cê e de todos de casa Quanto a mim estou são. Minha vida social aqui decorre dos meus atos simples de estudante apegado aos livros. Leio de manhã à noite, não paro de ler numa feber de colher maiores conhecimentos que alguns colegas, não sei se por incapacidade, demonstram aborrecer-se, reprovando-me a dedicação a ponto de recusar freqüência a festinhasa de família. Tem um deles, engraçado, com tintas de filósofo, que diz estar eu "perdendo o tempo". Francamente, eu ás vezes assim penso, mas sigo o meu destino. Continua-se falando em política por entre fatos tristes e também pitorescos, uns atingindo o absurdo, outros com possibilidades aparentes. Mas entre todos, elevando-se a quaisquer outros numa atitude de reserva sombria, ressalta a do suicídio do Dr. Tito Rosa, lente da Faculdade de Direito. O que produz grande rumor de estranheza é semelhante ato de desespero ser levado a efeito por um homem que o Dr. Constâncio Pontual considerava o mais equilibrado de todos os seus colegas. Quanto aos livros que Papá deve estudar, passo a mencioná-los: Copêndio de física e Química de Langlebert, Geometria de Trajano ou de Ottoni. O cacho de flores do tamarindo inspirou à minha escassa faculdade improvisatória os seguintes versos:

Não é mais formosa a aurora!
Que cacho de flores lindo
Parece um menino rindo
No altar de Nossa Senhora

E, depois, que dor me abrasa,
Meu Deus, que desesperança!
Cada flor é uma lembrança
Da gente de minha casa.

Como a vida parece
Triste, sem o tamarindo,
Ah! se ele tivesse vindo
Mas foi "melhor" que não viesse!

Foi melhor, e a alma não erra
Porque para alma exilada
É melhor nunca ver nada
Dos campos de sua terra.

Às vezes basta uma flor
Para repentinamente
Assim como um ferro quente
Eternizar nossa dor.

Não posso estar bem aqui!
Nem sei mesmo se há lugar
Que eu possa um dia trocar
Pela terra em que nasci

Todos os dias eu vou
À rua das minhas dores,
Mostrar o cacho de flores
Que minha mãe me mandou

Saudades a todos e de todos.
Abrace e abençoe o Filho do coração
Augusto dos Anjos

Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1910

Prezada Sinhá Mocinha,
Eu e Ester lhe pedimos a benção Nossa viagem até esta Capital se realizou nas condições mais satisfatórias possíveis. Enjoamos muito pouco e, a bordo, fomos distinguidos por um acolhimento ótimo, por parte do Comandante e de algumas famílias viajantes com as quais nos relacionamos amistosamente. Receberam-nos aqui, no cais Pharoux, o Odilon, Alfredo, Dr. Seráfico da Nóbrega, o Santos Neto e outras pessoas amigas. Telegrafei a VM.cê, no dia de nossa chegada, comunicando-lhes o havermo-nos hospedado no Largo do Machado, 37. Como, porém, a pensão oferecia a desvantagem do isolamento e falta de comunicablidade diária com pessoas conhecidas, mudei-me para Avenida Central, 1, ou Praça Mauá, 73, 2º andar, estando, portanto, em contigüidade com a residência do Tio Bernardino que, como sabe, mora também nesse prédio, no 1º andar.
Ainda não escrevi para pessoa alguma daí, porém, logo que se me depara ocasião de travar re;ações supereminentes para as quais trouxe daí algumas cartas de recomendação. Aguardo destarte ensejo ulteriormais propício para escrever a VM. cê uma carta minuciosíssimo, espécie de protocolo, onde haverei de consignar todos os detalhes atinentes aos meus projetos e talves (quem sabe ?) suas próprias soluções respectivas.
Saudades a Iaiá, Artur e Aprígio.
Queira aceitar o coração cheio de afetos do Filho e amigo ex-corde
Augusto dos Anjos
P.S. Aguarde minha carta nesses poucos dias.

Rio, 2-4-1912
De Augusto dos Anjos para a
Prezada Sinhá-Mocinha.
Recebi sua cartinha última e não conheço números que expressem a quantidade vastíssima de alegria deixada, por ela, nas profundezas de minh'alma. Eu, Ester e Glória passamos regularmente.
Desejo seu bem-estar completo e o de todos daí. O Ministério da Agricultura designou-me para fazer parte duma comissão examinadora num concurso de admissão a uma escola agrícola recém-criada.
Já terminei os trabalhos, estando somente agora à espera da prodigalidade daquele Ministério no atinente à indenização dos meus serviços. Aprígio, como deve saber, acaba de ser nomeado substituto do Juiz Federal, em Mato-Grosso. Meu livro de versos continua em andamento, devendo estar pronto até o dia até o dia 15, conforme presumo.
Enviar-lhe-ei tudo quanto for escrito, a respeito dele, inclusive retratos et
reliquia.
Saudades a Iaiá e Alexandre.
Abençoe Glorinha e Ester.
Abrace e abençoe o amigo e Filho ex-corde

Augusto

Rio, 13-6-1912
Prezada Sinhá-Mocinha,
Remeto-lhe hoje pelo correio, bem assim a Iaiá e Alexandre, meu livro de versos.
O EU tem escandalizado o superficialíssimo meio intelectual daqui.
Em breve enviar-lhe-ei os jornais, onde vêm as críticas sobre o aludido livro.
Desejo que VM.cê e todos gozem de boa saúde.
Estou quase restabelecido da constipação que me andou aborrecendo durante largo tempo.
Escreva-me sempre. Ester e Glorinha lhe pedem a bênção.
Saudades a todos.
Receba um abraço do Filho e amigo ex-corde.
Augusto dos Anjos

Rio, 30-9-1912
Prezada Sinhá-Mocinha,
Saudações,
Nesta data envio-lhe um númeor de O Brasil Moderno que traz uma apreciação crítica sobre o meu livro de versos. Eu, Ester e Glorinha em paz.
Saudades a todos.
Abrace e abençoe o Filho e amigo ex-corde

Augusto dos Anjos

Rio, 14-6-1913
Prezada Sinhá-Mocinha,
Minhas saudações e meus votos pela continuidade de seu bem-estar e do de todos aí.
Comunico-lhe que às 1h. e meia da tarde de 12 deste mês, Ester deu à luz a um varãozinho augustal e muito robusto que há de ser fatalmente herdeiros das glórias paternas. Queira abençoa-lo. Chama-se Guilherme Augusto Fialho dos Anjos. Ester passa sem maior novidade.
Glorinha envia-lhe beijinhos e pede-lhe a benção.
Saudades a todos.
Receba uma abraço de Seu filho ex-corde
Augusto dos Anjos

Rio, 15 de junho de 1914
Prezada Sinhá-Mocinha,
Minhas saudações afetuosas.
Faço votos pela saúde initerrupta de VM.cê e bem-estar de todos daí.
Eu, Ester e as crianças vamos passando da mesma forma.
Comunico a VM.cê que acabo de ser nomeado Diretor do Grupo Escolar de Leopoldina, cidade de Minas Gerais, ligada por via férrea a esta capital.
As condições de vida, neste lugar, são as melhores possíveis, segundo informações que me foram dadas a respeito. Vou destarte descansar um pouco da afanosíssima existência que tenho arrastado até esta data com uma heroicidade muito acima das energias humanas comuns. Foi o deputado mineiro Dr. Ribeiro Junqueira quem me deu essa colocação. Ainda passo alguns dias aqui, lutando com umas tantas dificuldades para levar a efeito o problema da viagem. Espero, entretanto vencê-las, e afinal de contas, Leopoldinizar-me. Não tenho escrito a VM.cê freqüentemente, por causa da agitação que hei estado por último a resolver penosas situações, das quais já, em parte, me libertei. Estamos agora à Rua Aristides Lobo, nº 23, Pensão, de onde seguiremos em breve para Leopoldina. A viagem é de 11 horas. O trem parte às 6 h. da manhã e chega às 5 da tarde.
Logo que chegarmos, escrever-lhe-ei minuciosamente. As crianças enviam-lhe muitos beijinhos e pedem-lhe a bênção. Saudades a Iaiá e Artur e família. Ester envia-lhe carinhosamente recomendações. Alexandre já seguiu para Buenos Aires.
Um abraço do Filho que lhe pede a bênção com abundantes amostras de afeto seguro,
Augusto dos Anjos

Leopoldina, 26-6-1914
Prezada Sinhá-Mocinha,
Desejo a inteireza de sua saúde e o bem estar de todos daí.
Escrevo-lhe, de Leopoldina, para onde vim a 22 deste mês para exercer as funções de Diretor do Grupo Escolar local.
Eu, Ester e as crianças, fizemos boa viagem, apesar da poeira abundante que encontramos pelo caminho. O povo aqui é nimiamente hospitaleiro, havendo-nos prodigalizado ótimo acolhimento.
A cidade é como todas as suas congêneres, de feio aspecto arquitetural, nada faltando, entretanto, relativamente às comodidades. As casas são assoalhadas, têm luz elétrica etc. etc. Até aqui, estou bastante satisfeito. Empossei-me anteontem no emprego, com a solenidade relativa que lugares, como este, distanciados de pseudocivilizações afetadas, comportam.
Escreva-me sempre. Saudades de Ester e das crianças, que lhe pedem a bênção.
Em breve escrever-lhe-ei com mais minuciosidade.
Recomendações as famílias de Artur, do Sr. Almeida, Corinha, Marica Cirne,Dr.
Lima e a todos os conhecidos. Abrace e abençoe o Filho e amigo certo Augusto dos Anjos

P.S. Moro à Rua Barão de Cotegipe, nº 11. Aliás, seria bastante no envelope mencionar o meu nome e o da cidade em que estou para chegar a carta ou qualquer outra correspondência às minhas mãos. Como sabe, nas cidades pequenas, todos se conhecem e os números das casas perdem completamente a utilidade aritmética. O mesmo

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