Paulo Leminski

Mestiço de polaco com negra, Paulo Leminski nasceu na cidade de Curitiba, Paraná, em 24 de agosto de 1944.  Desde os 18 anos, aproximadamente, esteve envolvido com a literatura, participando de congressos e concursos em todo o Brasil.  Casou-se com a consagrada poetisa Alice Ruiz, com quem teve duas filhas.  Além de poeta e prosista, Leminski era também tradutor (traduziu para o espanhol e o inglês trechos de sua obra Catatau, o qual foi traduzido na íntegra para o espanhol), como também compositor e letrista, tendo músicas gravadas por Caetano Veloso, Paulinho Boca de Cantor, A Cor do Som e Moraes Moreira.  Paulo Leminski morreu em 07 de junho de 1989

HAI

Eis que nasce completo

e, ao morrer, morre germe,

o desejo, analfabeto,

de saber como reger-me

ah, saber como me ajeito

para que eu seja quem fui,

eis o que nasce perfeito

e, ao crescer, diminui.

KAI

Mínimo templo

para um deus pequeno,

aqui vos guarda,

em vez da dor que peno,

meu extremo anjo de

 vanguarda.

De que máscara

se gaba sua lástima,

de que vaga 

se vangloria sua história,

saiba quem saiba.

A mim me basta

a sombra que se deixa,  

o corpo que se afasta.

Meu coração lá longe

Faz sinal que quer voltar.

Já no peito trago em bronze:

NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.

Pra que me serve um negócio

Que não cessa de bater?

Mais me parece um relógio

Que acaba de enlouquecer.

Pra que é que eu quero quem chora,

Se estou tão bem assim,

E o vazio que vai lá fora

Cai macio dentro de mim?

A lua no cinema

A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava pra ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia numa janela.

A lua ficou tão triste

com aquela história de amor

que até hoje a lua insiste:

- Amanheça, por favor!

.............................

amei em cheio

meio amei-o

meio não amei-o

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arte que te abriga arte que te habita

arte que te falta arte que te imita

arte que te modela arte que te medita

arte que te mora arte que te mura

arte que te todo arte que te parte

arte que te torto ARTE QUE TE TURA

.................................

A tese segunda

Evapora em pergunta

Que entrega é tão louca

Que toda espera é pouca

Qual dos cinco mil sentidos

Está livre de mal-entendidos?

.....................................

Atrasos do acaso

Cuidados

Que não quero mais

O que era para vir

Veio tarde

E essa tarde não sabe

Do que o acaso é capaz …

.........................

Distâncias Mínimas

um texto morcego

se guia por ecos

um texto texto cego

um eco anti anti anti antigo

um grito na parede rede rede

volta verde verde verde

com mim com com consigo

ouvir é ver se se se se se

ou se se me lhe te sigo?

Estupor
   
   esse súbito não ter
   esse estúpido querer
   que me leva a duvidar
   quando eu devia crer
 
   esse sentir-se cair
   quando não existe lugar
   aonde se possa ir
 
   esse pegar ou largar
   essa poesia vulgar
   que não me deixa mentir

Merda e Ouro

Merda é veneno.
No entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
Cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.

Hoje à noite

Lua alta

Faltei

E ninguém sentiu

A minha falta

DATILOGRAFANDO ESTE TEXTO

     ler se lê nos dedos

não nos olhos

     que os olhos são mais dados

a segredos

.........................

O amor, esse sufoco,

Agora há pouco era muito,

Agora, apenas um sopro

Ah, troço de louco,

Corações trocando rosas,

E socos.

.............................

o mar o azul o sábado

liguei pro céu

mas dava sempre ocupado

O que quer dizer

O que quer dizer diz.

Não fica fazendo

O que, um dia, eu sempre fiz.

Não fica só querendo, querendo,

Coisa que eu nunca quis.

O que quer dizer, diz.

Só se dizendo num outro

O que, um disse, se disse,

Um dia, vai ser feliz.

................................

pelos caminhos que ando

um dia vai ser

só não sei quando

Pergunte ao pó

Cresce a vida

Cresce o tempo

Cresce tudo

E vira sempre

Esse momento

Cresce o ponto

Bem no meio

Do amor seu centro

Assim como

O que a gente sente

E não diz

Cresce dentro

Razão de Ser

Escrevo.

E pronto.

Escrevo porque preciso,

Preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece,

E as estrelas lá no céu

Lembram letras no papel,

Quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias.

O peixe beija e morde o que vê.

Eu escrevo apenas.

Tem que ter por quê?

Retrato de lado

retrato de frente

de mim me faça

ficar diferente

Segundo consta

O mundo acabando,

Podem ficar tranquilos.

Acaba voltando

Tudo aquilo.

Reconstruam tudo

Segundo a planta dos meus versos.

Vento, eu disse como.

Nuvem, eu disse quando.

Sol, casa, rua,

Reinos, ruínas, anos,

Disse como éramos.

Amor, eu disse como.

E como era mesmo?

Sem Budismo

Poema que é bom

acaba zero a zero.

Acaba com.

Não como eu quero.

Começa sem.

Com, digamos, certo verso,

veneno de letra,

bolero, Ou menos.

Tira daqui, bota dali,

um lugar, não caminho.

Prossegue de si.

Seguro morreu de velho,

e sozinho.

........................

sorte no jogo

azar no amor

de que me serve

sorte no amor

se o amor é um jogo

e o jogo não é o meu forte,

meu amor?

Sossegue coração

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

..........................

Tudo dito,

Nada feito,

Fito e deito

............................

Viver de noite me fez senhor do fogo.

A vocês, eu deixo o sono.

O sonho, não!

Este eu mesmo carrego!

...................

     meio-dia        três cores

eu disse vento

      e caíram todas as flores

.................................

entre a dívida externa

e a dúvida interna

meu coração

comercial

        alterna

...................

moinho de versos

movido a vento

em noites de boemia

vai vir o dia

quando tudo que eu diga

seja poesia

..................

      noite sem sono

o cachorro late

      um sonho sem dono

...........................

furo a parede branca

para que a lua entre

e confira com a que,

frouxa no meu sonho,

é maior do que a noite

.........................

      primeiro frio do ano

fui feliz

      se não me engano

...........................

não fosse isso

e era menos

não fosse tanto

e era quase

................. 

      entre os garotos de bicicleta

o primeiro vaga-lume

      de mil novecentos e oitenta e sete

......................

a noite

me pinga uma estrela no olho

e passa

.................... 

       na torre da igreja

o passarinho pausa

      pousa assim feito pousasse

o efeito na causa

..................

um pouco de mão

      em todo poema que ensina

      quanto menor

      mais do tamanho da china

.........................

      entre

a água

      e o chá

desaba

      rocha

o maracujá

...............

duas folhas na sandália

o outono

também quer andar

......................

      alvorada

alvoroço

      troco minha alma

por um almoço

     relógio parado

o ouvido ouve

     o tic tac passado

....................

      cortinas de seda

o vento entra

      sem pedir licença

..........................

   a estrela cadente

me caiu ainda quente

   na palma da mão

..................

      lua à vista

brilhavas assim

      sobre auschwitz?

..................

    lua de outono

por ti

    quantos s sono

..................... 

      hoje à noite

lua alta

      faltei

e ninguém sentiu

      minha falta

................

    milagre de inverno

agora é ouro

    a água das laranjas

..............

     coisas do vento

a rede balança

     sem ninguém dentro

..................

      tarde de vento

até as árvores

      querem vir para dentro

 .......................

     morreu o periquito

a gaiola vazia

     esconde um grito

 ..................

      tudo claro

ainda não era o dia

      era apenas o raio

....................

     lua crescente

o escuro cresce

     a estrela sente

"...a poesia está dentro da vida, e não a vida dentro da poesia."

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