MAIAKÓVSKI

VLADÍMIR VLADÍMIROVITCH MAIAKÓVSKI, nasceu a 7 de julho de 1893, na aldeia georgiana de Bagdadi, que hoje tem o seu nome. a 19 de julho, pelo novo calendário. O próprio Maiakóvski informa:
"Nascido a 7 de julho de 1894 ou 1893. A opinião de minha mãe não coincide com os documentos de meu pai. Antes, com certeza, não nasci".

 
A Propósito Disto * 
 
A Fé 
Distendei vossa espera o quanto quiserdes - 
tão clara, 
      duma clareza tão alucinante 
é minha visão 
      que, dir-se-ia, 
bastava o tempo de liquidar esta rima, 
para, grimpando ao longo do verso, 
  entrar numa vida maravilhosa. 
Eu não preciso indagar 
   o que e como. 
Vejo-o, 
        nítido, 
      até os último detalhes, 
no ar, 
        camada sobre camada, 
     como pedra sobre pedra. 
Vejo erguer-se, 
       fulgurando no pináculo dos séculos, 
isento de podridões ou poeiras, 
       o laboratório das ressurreições humanas. 
Eis o calmo químico, 
   a vasta fronte 
franzida 
       em meio à experiência . 
Num livro, "Toda a Terra", 
       procura ele um nome. 
"O Século Vinte...vejamos, 
   a quem ressuscitar? 
A Maiakovski talvez... 
       Não, busquemos matéria mais interessante! 
Não era bastante belo esse poeta". 
Será então minha vez de gritar 
       daqui mesmo, 
               desta página de hoje: 
"Pára, não folheies mais! 
       É a mim que deves ressuscitar!"   

O Amor 
 
Um dia, quem sabe, 
ela, que também gostava de bichos, 
apareça 
        numa alameda do zoo, 
sorridente, 
     tal como agora está 
         no retrato sobre a mesa,. 
Ela é tão bela, 
       que, por certo, hão de ressuscitá-la. 
Vosso Trigésimo Século 
ultrapassará  o exame 
de mil nadas, 
  que dilaceravam o coração. 
Então, 
       de todo amor não terminado 
seremos pagos 
      em enumeráveis noites de estrelas. 
Ressuscita-me, 
     nem que seja só porque te esperava 
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano! 
Ressuscita-me, 
     nem que seja só por isso! 
Ressuscita-me! 
    Quero viver até o fim o que me cabe! 
Para que o amor não seja mais escravo 
de casamentos, 
      concupiscência, 
        salários. 
Para que, maldizendo os leitos, 
   saltando dos coxins, 
o amor se vá pelo universo inteiro. 
Para que o dia, 
    que o sofrimento degrada, 
não vos seja chorado, mendigado. 
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira. 
Para viver 
      livre dos nichos das casa. 
Para que 
     doravante 
   a família 
       seja 
o pai, 
      pelo menos o Universo; 
a mãe, 
      pelo menos a Terra. 
(1923) 
 
Amo 
COMUMENTE É ASSIM 
Cada um ao nascer 
traz sua dose de amor, 
mas os empregos, 
o dinheiro, 
tudo isso, 
nos resseca o solo do coração. 
Sobre o coração levamos o corpo, 
sobre o corpo a camisa, 
mas isto é pouco. 
Alguém 
imbecilmente 
inventou os punhos 
e sobre os peitos 
fez correr o amido de engomar. Quando velhos se 

arrependem. 
A mulher se pinta. 
O homem faz ginástica 
pelo sistema Muller. 
Mas é tarde. 
A pele enche-se de rugas. 
O amor floresce, 
floresce, 
e depois desfolha.   


GAROTO 
 
Fui agraciado com o amor sem limites. 
Mas, quando garoto, 
a gente preocupada trabalhava 
e eu escapava 
para as margens do rio Rion 
e vagava sem fazer nada. 
Aborrecia-se minha mãe: 
"Garoto danado!" 
Meu pai me ameaçava com o cinturão. 
Mas eu, com três rublos falsos, 
jogava com os soldados sob os muros. 
Sem o peso da camisa, 
sem o peso das botas, 
de costas ou de barriga no chão, 
torrava-me ao sol de Kutaís 
até sentir pontadas no coração. 
O sol assombrava: 
"Daquele tamaninho 
e com um tal coração! 
Vai partir-lhe a espinha! 
Como, será que cabem 
nesse tico de gente 
o rio, 
o coração, 
eu 
e cem quilômetros de montanhas?" 


ADOLESCENTE 
 
A juventude de mil ocupações. 
Estudamos gramática até ficar zonzos. 
A mim 
me expulsaram do quinto ano 
e fui entupir os cárceres de Moscou. 
Em nosso pequeno mundo caseiro 
brotam pelos divãs 
poetas de melenas fartas. 
Que esperar desses líricos bichanos? 
Eu, no entanto, 
aprendi a amar no cárcere. 
Que vale comparado com isto 
a tristeza dos bosques de Boulogne? 
Que valem comparados com isto 
suspirosante a paisagem do mar? 
Eu, pois, 
me enamorei da janelinha da cela 103 
da "oficina de pompas fúnebres". 
Há gente que vê o sol todos os dias 
e se enche de presunção. 
"Não valem muito esses raiozinhos" 
dizem. 
Eu, então, 
por um raiozinho de sol amarelo 
dançando em minha parede 
teria dado todo um mundo 


MINHA UNIVERSIDADE 
 
Conheceis o francês 
sabeis dividir, 
multiplicar, 
declinar com perfeição. 
Pois, declinai! 
Mas sabeis por acaso 
cantar em dueto com os edifícios? 
Entendeis por acaso 
a linguagem dos bondes? 
O pintainho humano 
mal abandona a casca 
atraca-se aos livros 
e as resmas de cadernos. 
Eu aprendi o alfabeto nos letreiros 
folheando páginas de estanho e ferro. 
Os professores tomam a terra 
e a descarnam 
e a descascam 
para afinal ensinar:"Toda ela não passa dum globinho!" 
Eu com os costados aprendi geografia. 
Os historiadores levantam 
a angustiante questão: 
- Era ou não roxa a barba de Barba Roxa? 
Que me importa! 
Não costumo remexer o pó dessas velharias! 
Mas das ruas de Moscou 
conheço todas as histórias. 
Uma vez instruídos, 
há os que se propõem a agradar às damas, 
fazendo soar no crânio suas poucas idéias, 
como pobres moedas numa caixa de pau. 
Eu, somente com os edifícios, conversava. 
Somente os canos de água me respondiam. 
Os tetos como orelhas espichando 
suas lucarnas atentas 
aguardavam as palavras 
que eu lhes deitaria. 
Depois 
noite a dentro 
uns com os outros 
palravam 
girando suas línguas de cata-vento.  

ADULTOS 
 
Os adultos fazem negócios. 
Têm rublos nos bolsos. 
Quer amor? Pois não! 
Ei-lo por cem rublos! 
E eu, sem casa e sem teto, 
com as mãos metidas nos bolsos rasgados, 
vagava assombrado. 
À noite 
vestis os melhores trajes 
e ides descansar sobre viúvas ou casadas. 
A mim 
Moscou me sufocava de abraços 
com seus infinitos anéis de praças. 
Nos corações, nos relógios 
bate o pêndulo dos amantes. 
Como se exaltam as duplas no leito do amor! 
Eu, que sou a Praça da Paixão, * 
surpreendo o pulsar selvagem 
do coração das capitais. 
Desabotoado, o coração quase de fora, 
abria-me ao sol e aos jatos de água. 
Entrai com vossas paixões! 
Galgai-me com vossos amores! 
Doravante não sou mais dono de meu coração! 
Nos demais - eu sei, 
qualquer um o sabe - 
O coração tem domicílio 
no peito. 
Comigo 
a anatomia ficou louca. 
Sou todo coração - 
em todas as partes palpita. 
Oh! Quantas são as primaveras 
em vinte anos acesas nesta fornalha! 
Uma tal carga 
acumulada 
torna-se simplesmente insuportável. 
Insuportável 
não para o verso 
de veras. 

O QUE ACONTECEU 
 
Mais do que é permitido, 
mais do que é preciso, 
como um delírio de poeta 
sobrecarregando o sonho: 
a pelota do coração tornou-se enorme, 
enorme o amor, 
enorme o ódio. 
Sob o fardo, 
as pernas vão vacilantes. 
Tu o sabes, 
sou bem fornido, 
entretanto me arrasto, 
apêndice do coração, 
vergando as espáduas gigantes. 
Encho-me dum leite de versos 
e, sem poder transbordas, 
encho-me mais e mais. 

CLAMO 
 
Levantei-me como um atleta, 
levei-o como um acrobata, 
como se levam os candidatos ao comício, 
como nas aldeias se toca a rebate 
nos dias de incêndio. 
Clamava: 
"Aqui está, aqui! Tomai-o!" 
Quando este corpanzil se punha a uivar, 
as donas 
disparando 
pelo pó, pelo barro ou pela neve, 
como um foguete fugiam de mim. 
- "Para nós, algo um tanto menor, 
algo assim como um tango..." 
Não posso levá-lo 
e carrego meu fardo. 
Quero arremessá-lo fora 
e sei, não o farei. 
Os arcos de minhas costelas não resistem. 
Sob a pressão 
range a caixa torácica. 

TU 
 
Entraste. 
A sério, olhaste 
a estatura, 
o bramido 
e simplesmente adivinhaste: 
uma criança. 
Tomaste, 
arrancaste-me o coração 
e simplesmente foste com ele jogar 
como uma menina com sua bola. 
E todas, 
como se vissem um milagre, 
senhoras e senhorias exclamaram: 
- A esse amá-lo? 
Se se atira em cima, 
derruba a gente! 
Ela, com certeza, é domadora! 
Por certo, saiu duma jaula! 
E eu júbilo 
esqueci o julgo. 
Louco de alegria 
saltava 
como em casamento de índio, 
tão leve, tão bem me sentia. 

IMPOSSÍVEL 
 
Sozinho não posso 
carregar um piano 
e menos ainda um cofre-forte. 
Como poderia então 
retomar de ti meu coração 
e carregá-lo de volta? 
Os banqueiros dizem com razão: 
"Quando nos faltam bolsos, 
nós que somos muitíssimo ricos, 
guardamos o dinheiro no banco". 
Em ti 
depositei meu amor, 
tesouro encerrado em caixa de ferro, 
e ando por aí 
como um Creso contente. 
É natural, pois, 
quando me dá vontade, 
que eu retire um sorriso, 
a metade de um sorriso 
ou menos até 
e indo com as donas 
eu gaste depois da meia-noite 
uns quantos rublos de lirismo à toa. 

O QUE ACONTECEU COMIGO 
 
As esquadras acodem ao porto. 
O trem corre para as estações. 
Eu, mais depressa ainda, 
vou a ti, 
atraído, arrebatado, 
pois que te amo. 
Assim como se apeia 
o avarento cavaleiro de Púchkin 
alegre por encafuar-se em seu sótão, 
assim eu 
regresso a ti, amada, 
com o coração encantado de mim. 
Ficais contentes de retornar à casa. 
Ali vos livrais da sujeira, 
raspando-vos, lavando-vos, 
fazendo a barba. 
Assim retorno eu a ti. 
Por acaso, 
indo a ti não volto à minha casa? 
Gente terrena ao seio da terra volta. 
Sempre volvemos à nossa meta final. 
Assim eu, 
em tua direção me inclino 
apenas nos separamos 
mal acabamos de nos ver. 

DEDUÇÃO 
 
Não acabarão com o amor, 
nem as rusgas, 
nem a distância. 
Está provado, 
pensado, 
verificado. 
Aqui levanto solene 
minha estrofe de mil dedos 
e faço o juramento: 
Amo 
firme, 
fiel 
e verdadeiramente.

                                (1922) 
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin.
 
 Na primeira noite

Eles se aproximam

E colhem uma flor

Do nosso jardim

E não dizemos nada.

Na segunda noite

Ja não se escondem:

Pisam as flores,

Matam nosso cão

E não dizemos nada.

Até que um dia

O mais frágil deles

Entra sozinho em nossa casa,

Rouba-nos a lua e,

Conhecendo nosso medo,

Arranca-nos a voz da garganta

E porque não dissemos nada,

Já não podemos dizer nada.

..............

Nos demais,

todo mundo sabe,

o coração tem moradia certa,

fica bem aqui no meio do peito,

mas comigo a anatomia ficou louca,

sou todo coração.

...................

Lábios cerrados,

nem um grito soltará minha boca

mordida até sangrar.

Amarra-me a um cometa,

como à cauda de um cavalo

e chicoteia!

Que meu corpo se estraçalhe

nos dentes das estrelas.



Brilhar pra sempre

Brilhar com um farol

Brilhar com brilho eterno

Gente é pra brilhar

Que tudo mais vá pro inferno

Este é meu slogan

E do sol

A Esperança

 Injeta sangue

no meu coração,

enche-me até o bordo das veias!

Mete-me no crânio pensamentos!

Não vivi até o fim o meu bocado terrestre ,

sobre a terra

não vivi o meu bocado de amor.

Eu era gigante de porte,

mas para que este tamanho?

Para tal trabalho basta uma polegada.

Com um toco de pena, eu rabiscava papel,

num canto do quarto, encolhido,

como um par de óculos dobrado dentro do estojo.

Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:

esfregar,

lavar,

escovar,

flanar,

montar guarda.

Posso, se vos agradar,

servir-vos de porteiro.

Há, entre vós, bastante porteiros?

Eu era um tipo alegre,

mas que fazer da alegria,

quando a dor é um rio sem vau?

Em nossos dias,

se os dentes vos mostrarem

não é senão para vos morder

ou dilacerar.

O que quer que aconteça,

nas aflições,

pesar...

Chamai-me!

Um sujeito engraçado pode ser útil.

Eu vos proporei charadas, hipérboles

e alegorias,

malabares dar-vos-ei

em versos.

Eu amei...

mas é melhor não mexer nisso.

Te sentes mal?

Tanto pior...

Gosta-se, afinal, da própria dor.

Vejamos...  Amo também os bichos -

vós os criais,

em vossos parques?

Pois, tomai-me para guarda dos bichos.

Gosto deles.

Basta-me ver um desses cães vadios,

como aquele de junto à padaria,

um verdadeiro vira-lata!

e no entanto,

por ele,

arrancaria meu próprio fígado:

"Toma, querido, sem cerimônia, come!"

COMUMENTE É ASSIM

 Cada um ao nascer

traz sua dose de amor,

mas os empregos,

o dinheiro,

tudo isso,

nos resseca o solo do coração.

Sobre o coração levamos o corpo,

sobre o corpo a camisa,

mas isto é pouco.

Alguém

imbecilmente

inventou os punhos

e sobre os peitos

fez correr o amido de engomar.

Quando velhos se arrependem.

A mulher se pinta.

O homem faz ginástica

pelo sistema Muller.

Mas é tarde.

A pele enche-se de rugas.

O amor floresce,

floresce,

e depois desfolha.
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