Fernando Pessoa (1888-1935)
Poeta português. Artista múltiplo, expressou em sua obra as angústias e contradições do homem
moderno. Poeta dos mais estimados no Brasil, Fernando Pessoa publicou
em vida apenas dois livros, mas deixou uma obra valiosa em que expressa, como
poucos, a angústia e as contradições do homem moderno. Afora o mérito
inquestionável do escritor, atrai atenção também seu curioso desdobramento em
heterônimos, dos quais os mais conhecidos são Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e
Ricardo Reis, poetas, e Bernardo Soares, prosador.
Fernando Antônio Nogueira
Pessoa nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888. Aos cinco anos perdeu o pai, que
era crítico musical. Em vista do segundo casamento da mãe, foi levado em 1896 para Durban, África do Sul, onde fez os cursos correspondentes ao primeiro e segundo
graus. Em 1901 escreveu os primeiros poemas, em inglês, e três anos depois já lera os
grandes autores de língua inglesa, como William Shakespeare, John Milton, Keats,
Shelley, Tennyson e Edgar Allan Poe.
Em 1905 voltou sozinho para Lisboa e iniciou o curso superior de letras, que deixou
no ano seguinte. A fim de dispor de tempo para ler e escrever, recusou vários bons
empregos e em 1908 passou a trabalhar como tradutor autônomo em escritórios
comerciais. Desenvolveu então enorme atividade crítica e criativa, publicou estudos
sobre a literatura portuguesa em A Águia (1912) e poemas em A Renascença (1914).
Criou, nessa época, seus heterônimos principais, três personagens distintos, que nada
tinham de simples pseudônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.
Em 1915 apareceram os dois números da revista Orfeu (o segundo foi dirigido por
Pessoa e Mário de Sá-Carneiro), com a "Ode triunfal", a "Ode marítima" e outros
textos que já revelavam o inconfundível talento do poeta. Ao viver a paixão,
irrealizada, por Ofélia Queirós, Fernando Pessoa lhe explicou, em carta, que sua vida
girava em torno da literatura, sendo tudo o mais secundário. Em 1929 organizou com
Antônio Boto uma antologia dos poetas portugueses modernos. Em sua fase de maior
atividade, lançou diversas teorias estéticas, como o sensacionismo, o paulismo e o
interseccionismo.
Vivia, então, em quartos alugados, conflituoso, sujeito a crises de
depressão e alcoolismo.
Com Mensagem (1934), único livro em português que publicou em vida, concorreu ao
Prêmio Antero de Quental, do Secretariado de Propaganda Nacional. Por ser a obra
muito pequena, segundo a justificativa alegada na ocasião, ganhou o segundo lugar. O
livro é um conjunto de poemas sobre os mitos portugueses em que, a par de alta
emotividade, se manifesta profunda reflexão. Pessoas e estilos. Pessoa não apenas
dominou como atualizou e desenvolveu todas as técnicas e vertentes da expressão
poética disponíveis em Portugal no começo do século XX. De um lado, como alguém
capaz de se assenhorear, em termos práticos, desses meios que uma sociedade
culturalmente rica e tradicionalmente literária tinha acumulado; de outro, por sua
formação inglesa de linhagem racionalista (e de muitos pontos de contato com o
americano Poe), como alguém igualmente capaz de sacudir e galvanizar aquela
realidade cultural e seu legado, em que a poesia se cristalizara, se transformara em
ornamento social e de diletantismo estéril em torno das saudades não resolvidas, da
exaltação patriótica ou pitoresca.
Observa-se na obra de Fernando Pessoa uma nova
dinâmica do trabalho literário, mediante uma concepção e utilização crítica da poesia.
Pessoa é acima de tudo um demolidor, um desmistificador (mesmo, se necessário,
quando se faz passar pelo oposto, por quem mistifica) e, psicologicamente, como disse
Jorge de Sena, um "indisciplinador de almas". Racionalista implacável, é também um
mágico, mas um mágico de humor ácido e cruel que tirasse brilhantemente da cartola
o coelho mais belo e em seguida o dissecasse severamente diante do público perplexo.
Embora se declarasse influenciado pelo saudosismo e pelos futuristas, por Camilo
Pessanha, Cesário Verde e muitos outros, estas e outras fontes são integralmente
reprocessadas por sua consciência, por seu poderoso arsenal de recursos estilísticos e
pelas metas que muito ambiciosamente perseguiu. Por uma espécie de extremo
niilismo existencial (expresso em versos como "Não: não quero nada"; "Nada me
prende a nada"; "Não sou nada"; "Há metafísica bastante em não pensar em nada"),
Pessoa só acredita no que não existe ("O mito é o nada que é tudo"), faz-se ocultista,
faz horóscopos e joga com o irreal contra uma realidade em que não crê, ou considera
penosa. É também o sentido do fingimento que atribui ao poeta.
Personalidade dissociável, mas que ao mesmo tempo se integra no imaginário e na
arte, recorreu desde cedo ao estratagema dos heterônimos. Ainda nos tempos de
colégio criou pelo menos três. Um deles, Alexander Search, é excelente poeta em
inglês. De alguns heterônimos elaborou com minúcia os respectivos dados biográficos,
idéias e convicções. Dentre uma dezena de pessoas além do próprio (ou ortônimo), três
ficaram célebres como poetas e um, o Bernardo Soares do Livro do desassossego,
escreveu prosa dispersa e ascética. Os quatro grandes poetas são, portanto, Fernando
Pessoa, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Obra poética - Exceto por Mensagem e os poemas em inglês, a obra de Pessoa só
foi editada em livro após sua morte, quando também se tornou muito conhecida.
Além de Mensagem, as obras em que Fernando Pessoa aparece ele próprio como
autor são os poemas reunidos no chamado Cancioneiro, os Poemas dramáticos (1952),
as poesias "À memória do presidente-rei Sidônio Pais" (1940) e "Quinto Império", as
"Quadras ao gosto popular", os poemas ingleses e franceses, os que foram
coligidos posteriormente e as traduções, entre as quais "O corvo" e mais dois
poemas de Poe. Muitos dos poemas em inglês de Pessoa receberam grande atenção de
pesquisadores, sobretudo por explorarem uma tendência que só em Álvaro de
Campos se mostra, e sem continuidade: o erotismo hedonista e arrebatado,
característico sobretudo de Epithalamium e English Poems III (1921). Em Mensagem,
de nacionalismo místico e simbólico, a essencialidade semântica e as imagens
vivamente definidoras fazem do texto um épico de miniaturas, flagrantes
surpreendidos na história. Muitos de seus versos já se vulgarizaram, como "Tudo vale
a pena / Se a alma não é pequena". No Cancioneiro, há desde poemas sensacionalistas
como "Hora absurda" e sonetos ocultistas de desconcertante originalidade até
pequenos registros líricos de primorosa sutileza psicológica: "O que és não vem à flor/
Das frases e dos dias. ”Nas Poesias (1944) de Álvaro de Campos há muitas faces e
perspectivas. Só uma delas, a do cantor das técnicas industriais modernas e da vida
urbana, tem a ver com Walt Whitman, a quem Campos presta homenagem num
poema e que é poeta de vôos modestos se comparado com Campos. Além do exaltado
libertário das odes, que publicou na revista Portugal Futurista (1917) o "Ultimatum",
agressivo manifesto literário, Campos se apresenta também como o avesso, o niilista
radical e desesperançado que tritura todas as crenças, ilusões, propósitos e
justificativas de sua vida e da vida humana em geral em "Lisbon Revisited" (1 e 2),
"Tabacaria", "Apostila", "Adiamento", "Aniversário". Nesses poemas, como disse
Adolfo Casais Monteiro, se revela a "própria encarnação da consciência infeliz do
homem moderno". Nos Poemas (1946) de Alberto Caeiro, em versos amplos e de um
tom de parábola, tudo se tece em torno da natureza contemplada. Aqui, ao contrário
do que ocorre em Mensagem, o mito é reduzido a sua realidade mais contingente,
como a pomba teológica que se empoleira nas cadeiras "e suja-as". Bem diferente é o
corte estilístico das Odes (1946) de Ricardo Reis, poeta clássico e pagão, horaciano, de
métrica rigorosa e enunciados perfeitos: "Sê todo em cada coisa." Esteta de um
estoicismo profundo, escreve um português de beleza escultórica e intenção didática:
"Ninguém te dá quem és."
Vitimado por uma crise hepática, Fernando Pessoa morreu
em Lisboa em 30 de novembro de 1935. A partir de 1942, por iniciativas de Luís de Montalvor e de João Gaspar Simões, passaram a ser publicadas suas obras completas,
inclusive em prosa, principalmente de crítica e filosofia, em que sobressaem Páginas
de doutrina estética (1946), Páginas íntimas e de auto-interpretação (1966) e Textos
filosóficos (1968). Estas e outras até então conhecidas foram organizadas e anotadas
por Cleonice Berardinelli para o volume Obras em prosa (1974), publicado pela
Editora José Aguilar, do Rio de Janeiro RJ, que se somou à Obra poética (1969),
organizada e anotada por Maria Aliete Galhoz para a mesma editora (1969).
Há
traduções da obra de Fernando Pessoa e seus heterônimos em espanhol, francês,
inglês, alemão, italiano e chinês, entre outras línguas.
ALGUNS POEMAS
"Mar Português"
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
"Liberdade"
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro pra ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma.
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
"Autopsicografia"
O poeta é fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida que sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não tem.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
"Cancioneiro"
Ó Nau Felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal -
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval...
E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gesto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar amanhã...
Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste... Seu spírito monge
Para nada externo é perto e real...
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval...
"O Menino da sua Mãe"
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
-Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome que o mantivera:
"O menino da sua mãe".
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço...Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há prece: "Que volte cedo, e bem! (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe.
"O Infante" Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, e viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!
ALGUNS POEMAS
Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro pra ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma.
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Autopsicografia
O poeta é fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida que sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não tem.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Cancioneiro
Ó Nau Felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal -
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval...
E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gesto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar amanhã...
Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste... Seu spírito monge
Para nada externo é perto e real...
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval...
O Menino da sua Mãe
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
-Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome que o mantivera:
O menino da sua mãe
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe.Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço...Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há prece:
Que volte cedo, e bem!
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
e viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
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